Calor de Maio que provoca arrepio

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Menino do Rio nos anos 50/60, me lembro  da Av. Atlântica com uma pista só, do Cine Rian e da Galeria Alasca, do Torneio Gomes Pedrosa (Paulistas x Cariocas), do Alcazar, da uva caramelada na praia e do Bob’s.

Mas pra contar essas histórias são outros quinhentos. Esbarro na dificuldade da faixa etária : contar um caso, só de forma coletiva : cada um lembra de um pedaço e aí vai.

Estava sozinho. Tive que arriscar. Até que me dei bem. Todos entenderam quando eu,sobranceiro, discorria sobre as ruas e avenidas de Ipanema: Vera Souto, que, depois do Jardim de Alá, vira Delfim Neto. Ou  as do comércio como a Ataulfo Alves, que se transforma depois em Visconde de Sabugosa.

Parece que foi ontem…

(Ricardo Alves de Lima)

 

Mudança de Hábito

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Paulista fica pateta quando vem ao Rio.

Acha a coisa mais natural do mundo comer granola de manhã e depois correr do Leblon ao Arpoador sentindo a maresia fresca na pele. Acha básico tomar água de coco fingindo que nem reconheceu o Alceu Valença no coco à sua direita. Acha corriqueiro almoçar buffet de saladas no Celeiro, tipo venho sempre aqui. Acha tranquilo deixar a bolsa no hotel e caminhar a tarde inteira com as mãos livres e o ombro leve. Acha rotina cruzar com a Marieta Severo no jantar no mesmo dia do Alceu. Acha óbvio conferir o que rola no MAM, no MAR, no CCBB e se programar pra não perder nada. Acha que entrar na Livraria da Travessa sem hora pra sair é elementar. Acha que passear todas as noites e assistir a um show melhor que o outro é  praxe.

Evidentemente.

Paulista no Rio finge que deu um pulinho no vizinho.

Mas paulista quando vem ao Rio, vem é pedir açúcar pro vizinho.  (RL)

 

Gorjeta

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Estávamos quase atingindo a perfeição: viajar só com cartão de crédito e uns trocados na carteira.

Mas de uns tempos pra cá o setor hoteleiro resolveu aplicar a máxima do ‘É dando que se recebe’ e agora, creiam, não dá mais pra sair de casa sem uma gorjeta gorda no bolso.

A bajulação é tanta que os hóspedes ganham até presente dos funcionários, puro investimento, difícil que seja por amor.

Da moça que cuidava das roupas ganhamos um bilhetinho fofo com desenho e tudo. Apesar que ela detonou o casaco da Bel, tipo foi pro lixo sem escalas. Do camareiro, faturamos um calendário. As meninas receberam um chocalho feito de folhas de bananeira. Tudo estrategicamente oferecido na véspera do nosso check-out.

E o garçom? Faltava implorar para que pedíssemos alguma coisa, qualquer coisa, só pra matar sua fome de atender. Sorry Christopher, sorry, só queremos água. Não queremos sobremesa, sorry Chris. Precisavam ver a cara dele, sorrindo desolado.

Mas não basta puxar o saco, tem que puxar conversa também, tenho certeza que escreveram isso em algum manual. E então vinha o chef, o sous chef, a gerente, a massagista , e o Christopher; todos loucos pra saber se dormimos bem, quais os planos do dia e pra elogiar meu colarzinho.

É a linha de montagem da gentileza.

Cabe ao hóspede comprá-la.  (RL)

 

Hakuna Matata

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Zanzibar, na costa leste da Tanzânia, é uma grande ilha cercada por várias ilhotas. O nome Tanzânia surgiu quando Tanganica e Zanzibar se uniram, em 1964.  Na ilha principal fica Stone Town, declarada patrimônio mundial pela Unesco, terra natal de Freddie Mercury e onde Dr. Livingston fixou residência quando saiu da Inglaterra para explorar a África.

Nessa cidade de pedra faz um calor do cão, as ruas são estreitas, o porto muito antigo hoje é caótico, nas esquinas vende-se mangas, abacaxis, e outras frutas que não reconheci, as mulheres andam cobertas ora de preto ora de panos africanos, os palácios de sultões foram transformados em “repartição”, e o povo é alegre, barulhento; um povo que reverencia Alá em Swahili. A spicy city.

Ontem cruzamos Stone Town depois pegamos uma estradinha de terra bem da sacolejante até chegarmos ao crossing point; de lá para o hotel só de lancha.

E como tem acontecido desde o início dessa viagem, nos despedimos da dura realidade pra entrar num filme. De um lado, pobreza e condições de vida abaixo do precário. 15 minutos pra frente, o paraíso: água turquesa dessas de doer na vista de tão intensa, um hotel onde ninguém fecha janelas nem portas, onde se come lagosta grelhada em mesas na areia sob um céu de sonho, onde se esquece que existe sapato, se esquece que existe o outro lado, onde parece que o continente logo ali está todo feliz que nem você.

Hakuna Matata.

É o que nos dizem, com um sorriso desdentado no rosto.  (RL)

 

Força Maior

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Hoje de manhã vimos essa leoa impondo sua condição de mais forte. Uma cena chocante mas que é necessária pra manter o equilíbrio da cadeia alimentar portanto aceitamos com naturalidade. Já a situação dos rinocerontes é intragável. Nos anos 60 existiam aproximadamente 65 mil rinocerontes no continente Africano; hoje são apenas 2 mil. Aqui na Tanzânia restam poucos. O chifre é disputado a ouro: 1 kg vale quase 70 mil dólares no tráfico internacional.

É o bicho homem impondo a lei do mais forte, a seu modo.

Ontem visitamos uma aldeia Maasai, exemplo de um povo que não consegue mais manter sua própria cultura e atualmente depende do turismo para comer e beber. Vi um grupo de mulheres com uma menininha de 2 ou 3 anos ao lado, brincando no chão . Na carinha dela havia pelo menos umas 15 moscas grudadas. Com medo de ofender a mãe, não abanei. Meu reflexo foi não me meter onde não fui chamada. Aguentei as moscas como quem engole uma pedra. Pagamos a taxa de contribuição, compramos pulseiras, eles dançaram e cantaram pra nós.

Visitamos a escola.

Os adultos podiam até estar fazendo seu show mas as crianças de jeito nenhum, não tem como não ver a verdade em cada rostinho.

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Durma-se com uma cena dessas carimbada na alma.

Não tem como esquecer e a questão é como ajudar realmente, sem impor o nosso mundo ‘mais forte’, soterrando o deles.

Só quem sabe aplicar essa lei são os animais.

Nós desequilibramos tudo.  (RL)

(Postei um filme da escola no Facebook, vale a pena assistir, não consegui postar aqui.)

 

Mãe é mãe

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No reino animal poucos machos se preocupam com seus filhotes.

O leão passa o dia inteiro longe da família, dormindo numa sombrinha. Não quer saber de amolação nem de obrigação. E quando ele aparece é o primeiro a enfiar a boca na carne fresca do dia, caçada pelas fêmeas. Um macho possui várias fêmeas.

No caso das hienas se o macho dominante morre seu substituto trata de matar os filhotes pequenos ‘do outro’, pra começar logo a sua geração de descendentes.

O ‘girafo’ também não se emociona com esse tema. Aliás entre eles a ideia de família é temporária. O macho detecta um bando de fêmeas, saca se estão ‘naqueles dias’, faz a sua parte e depois se manda. Está sempre de passagem.

Esqueci de perguntar ao Bernard, nosso power ranger, sobre o comportamento das cheetahs mas a julgar pelo grupo que encontramos hoje – uma mãe com 3 filhotes bem grandes – deve ser a mesma coisa. Nenhum papi soberano na área.

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Pois os machos não sabem o que estão perdendo.

Antes de embarcarmos para a Tanzânia, minha filha precisou fazer uma biópsia. Imediatamente fiz uma promessa. Hoje veio o resultado por e-mail.

Meu marido que é uma pessoa evoluída está muito muito feliz mas quem ficará um ano sem comer chocolate sou eu.

Muito muito muito muito feliz.

Mãe é mãe. E esse jeito primitivo de amar vale a pena. (RL)

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Brabeza

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No começo da semana fiz a mala toda, calculada centímetro por centímetro. Só posso levar 12kgs por isso arrumei de manhã cedo, pra tirar o máximo proveito dos neurônios. Ontem, véspera da viagem, peguei o cadeado, puxei o zíper só para descobrir no final do trilho que não tem como trancar a mala, a  mala que é novinha, comprada em dezembro. Simplesmente não dá. Faltam aqueles puxadores que ficam pendurados no zíper e que, enfiando o cadeado, a gente gruda um lado no outro. Pecinhas medíocres porém vitais.

Taí o primeiro estresse do ano: meu kit safari dando sopa no aeroporto de Cumbica… é ruim hein?

Viajar com a mala destrancada seria uma prova de que em 2014 me tornei uma pessoa mais tranquila, centrada e otimista. Ir até a loja, sem a nota fiscal, e rodar a africana com a vendedora acho que não vai adiantar nada embora se a viagem não fosse hoje, se as promessas de Ano Novo não estivessem tão fresquinhas, essa seria a reação imediata. Terceira opção: pegar uma mala velha, respirar fundo e refazer a engenharia do espaço. Quarta possibilidade é correr pro shopping e comprar aquela mala que eu não comprei porque já tinha comprado essa. E gastar o que eu não devia mas viajar com a mala certa só pra não me sentir derrotada por um zíper, inconformada e desesperada. Quinta e última alternativa: detonar todas as gerações da marca da mala nas redes sociais.

Me darei o direito de escolher 2 alternativas.

Me dei o direito de escolher 2 alternativas.

Quando o destino é a selva, o fim justifica os meios e também a pressa.  (RL)

 

Choque de realidade

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Fim de férias é sinônimo de aspirador quebrado. Não dá outra. 15 dias fora e o doce lar não resiste. Pifou também a coifa da cozinha e a secadora da casa de campo. Santo choque de realidade. E isso porque ainda não encarei a balança que por sinal nunca enguiça. Diante de tanta assistência técnica me permiti 24 horas de sopa de legumes antes de sentir o peso do festival de massas, ameijoas, bacalhau e doces amarelos. Vai custar mais caro que a coifa, o aspirador e a secadora combinados. Mas não me arrependo. Se tivesse ignorado essas delícias encontraria os mesmos pepinos domésticos na volta. Ou não. Nunca saberei se é castigo. Nesse momento preciso confessar que em Veneza andei de vaporetto sem pagar.

Uma semana é o tempo que a pessoa precisa pra retomar a realidade. O avião é que apressa tudo.  (RL)

 

Santa Gemada

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Os doces portugueses devem aos conventos sua fama internacional. É que antes de inventarem o Passe Bem, as freiras daqui usavam clara de ovo para engomar seus hábitos. Sobrava aquele montão de gemas e então – não desperdiçarás! – surgiram tachos, fornadas e conservas de doces híperamarelos, doces à base de gema e açúcar, doces tão divinos que é impossível não se jogar, e comer mais um, e outro, e outro, e só mais esse, agora o último e juro pelas freirinhas que amanhã jejuarei.

E os nomes? E o s’taque? Oh m’nina q’mãrãvilhã!

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Toucinho d’Céu, Enxãrcada d’Ovs, Ovs Molis, Babã d’Moça, Trouxinha d’Ovs, Fiosh d’Ovs, Qãijo d’Ovs, Pãshtéish d’Belém, Travsseirosh d’Sintra, Bãrriga d’Freira….e por aí vai, gema e açúcar, açúcar e gema em combinações infinitas, variações incansáveis, e calorias….oh céus, caloriash inc’ntáveish, infelishment.

Fazer o que… Segundo a rapariga garçonete portuguesa que nos atendeu ontem, aqui quem não preshta pãra comer não preshta p’ra maish nada.

Sendo essa uma verdade incontestável, declaro que o bolinho abaixo me representa.  (RL)

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A segunda impressão é a que fica

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Semana passada desembarcamos em Lisboa e por sorte tínhamos conexão para Veneza o que nos autorizou a furar uma fila colossal na imigração. Por pouco escapamos de começar a viagem com o pé esquerdo, ufa. Em compensação, ontem desembarcamos novamente e rapidinho estávamos na rua, rumo a um magistral Bacalhau a Lagareira na graça de cidade que é Cascais.

Alugamos um carro e seguimos as indicações de um grupo de putos e cachopas: sigam o comboio! Viemos margeando o Tejo até o mar passando pelo Mosteiro dos Jerónimos, Torre de Belém,  bem lindo o caminho. Não pegamos bicha nenhuma, nem foi preciso usar os travões.

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O Bacalhau e também um delicioso Arroz de Mariscos comemos no restaurante Casa Velha, super dica de um amigo paulistano letrado na terra de Cabral. Chegando lá perguntamos ao garçom que estava na calçada:

- Por favor onde fica a entrada do restaurante?

- Desse aqui?

Já adorei Cascais.  (RL)

(Bicha – fila / Travões – breque /Puto – garotinho / Cachopa – garota)

 
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