Memória Bruta

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Cena 1: almoço informal entre amigas, tento lembrar o nome de um vulcão no deserto do Atacama, onde estive há muitos anos. Coisa à toa.

E não é que lembro?

Licancabur.

Cena 2: no mesmo dia, num jantar importante, acabo de ser apresentada ao pai do namorado de uma pessoa querida.

O pai se chama Ralf.

15 minutos depois eu o chamo de Frank.

Que ódio.

Qual o critério?

Essa memória, que vive às minhas custas, tem imensa vontade própria.

Escolhe ser boazinha ou mega cruel, estrategicamente.

Entre o vulcão e o homem, ela muito mal educada investiu no vulcão. Antes e de propósito.

Me deu confiança, me largou desprevenida. Sabia que no almoço eu tomaria suco e no jantar vinho.

Quer dizer, a culpa foi minha, não dela.

Memória bruta.

OK esse embate faz parte da vida e não acontece só comigo.

Mas me ocorreu escrever esse post porque de ontem pra hoje subitamente o conflito se inverteu.

Deu vontade de esquecer.

Vontade de procurar e decorar notícias boas.

Mas não tem como.

Nem que eu implore, nem que eu finja que não quero, vai dar pra esquecer.

O avião, o crime, o João. (RL)

 

Peixe Fora D’Água

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Quem diria…

Na busca por conforto máximo para os pés encontrei um tênis feito de pele de salmão.

Isso mesmo.

Descobri que o salmão que a gente costuma grelhar ou assar tem esse estranho potencial de renascer na forma de tênis.

Coisa básica pros antenados em moda, pra mim novidade.

Resolvi experimentar a iguaria mas como antes de colocar nos pés senti nas mãos o perigo, hesitei: poderia me apaixonar pela maciez das escamas? Logo pensei nas bolsas de jacaré, nos sapatos de piton..não, nada a ver, sou contra a caça ilegal desses animais que morrem sem justa causa.

Sou inocente.

Preciso de um sapato molinho e se salmão é alimento então não pode ser errado fabricar sapato com a parte que não se come e que vai para o lixo.

Errado é o preço. É isso que dói no coração.

Pois se o peixe sai pela porta dos fundos da peixaria deveria sair barato.

Joga uns sprays, joga tinta, joga cadarço, joga sola, joga marca e pronto, tira-se um tênis de salmão do forno.

Mas não é bem assim, claro.

Porque aí entram os adjetivos que o dinheiro não respeita: super macio, levíssimo, fino, lindo, descolado, sofisticado, must have.

É o poder do salmão.

E eu que não pertenço nada ao mundo fashion acabei falando desse jeito facinho e inconsequente porque o tênis de peixe me hipnotizou também. (RL)

 

Então…

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Tá certo que o 7 a 1 já foi mais que suficiente para arrancar a conquista da taça do centro da vida e depositá-la num canto escuro da alma mas enfim, para quem, como eu, adotou um segundo time e continuou ligadíssimo, agora que a Copa realmente acabou, que o mundo foi-se embora daqui, que as lágrimas de alegria embarcaram pra casa e as de tristeza secaram de frio, que as bandeiras voltaram pra sua enrolação habitual, que ninguém mais veste, nem posta, nem Insta, nem se pinta de verde amarelo…como fugir do esquisito que fica?

Só mergulhando de cabeça em outras realidades, tão paralelas quanto.

Uma dica é o livro Mr. Gwyn, do italiano Alessandro Baricco.

Logo de cara o personagem radicaliza: declara 52 coisas que nunca mais irá fazer na vida entre elas uma muito comprometedora pois é nada menos que o seu ganha pão. Quando li, esqueci a minha história para entrar na dele. Foi bom.

Outra dica: Hotel Budapeste, em cartaz nos cinemas.

Talvez não mereça um Oscar mas que cai como uma luva nesse momento ‘virar a página’ isso cai.

O filme é viagem encantadora que nos leva para beeeeeem longe da Copa.

São essas as minhas saídas de emergência. (RL)

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Câmbio Negro

Quem já comprou ingresso de cambista põe o dedo aqui.

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Mas peraí, tô confusa. Esse ‘negócio’ não devia ser uma atividade assim, digamos, discreta? Praticada por pessoas que não são exatamente do bem?

Porque de repente todo mundo virou cambista!

A Copa despertou uma ganância coletiva e mesmo com os jornais anunciando prisões, a turma dos desavisados continua postando ofertas indecorosas, alto e bom som, na internet.

Eu mesma tive vontade de comprar; tô louca pra assistir Argentina e Holanda. Mas, falando sério, nem a fratura do Neymar justifica enterrar tão fundo o bom senso.

Na minha humilde fantasia, imagino a cena:

Quem consegue ingresso oficialmente abre o envelope e vê, além do papel, um diabinho; um diabinho cuja cor já sinaliza riqueza: vermelho Ferrari. Como bem lhe compete, o Satanás fica atazanando, tentando, escancarando a avenida do mau caminho na frente do cidadão.

Quer ganhar dinheiro fácil? Essa pergunta todo dia, todo dia, tanto bate até que rompe, ou melhor, corrompe.

Agora que saíram os semifinalistas então, ingresso virou obra de arte.

Como se não fosse previsto que a essa altura do campeonato os jogos seriam entre times poderosos.

Repito a pergunta: quem nunca comprou? Eu já comprei.

Mas não de amigo. (RL)

 

Chão

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Tinha sangue na mão, na camisa, na cara.

O povo rodeou.

A senhora está bem?

Vou chamar o policial, toma essa aguinha, pode ficar com a garrafa viu?

Quer que eu acompanhe a senhora até em casa?

Aceitei a água, aceitei o policial, aceitei até ser chamada de senhora porque é o seguinte: esborrachar o queixo no chão de cimento do parque, domingo as 11 da manhã, bem no finalzinho da corrida, é pior que isso, pior que ser chamada de senhora.

Conheci o abismo de Cartola.

O tombo reduz nossas ilusões a pó. É um instante de solidão e angústia.

Só tive tempo de levantar o rosto pra não mergulhar de nariz.

Agora tá doendo e só posso comer purê.

Eu sabia que ia me custar caro não ficar em casa com a bunda no sofá assistindo minissérie.  (RL)

 

Desenturmada

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Até hoje não fui contaminada.

Meu marido sofre da mesma imunidade e isso não contribui em nada para o nosso futuro.

Estamos condenados.

Todo mundo comenta.

Ficaremos sem assunto, os dois.

Velhinhos, confinados na santa ignorância dos que jamais se descabelaram sábado a noite.

Pura preguiça, força do hábito, a maldita rotina que trava.

Já planejei mudar, investi, desisti.

Vejo nossa filha viciada e não sei se me preocupo mais com ela ou comigo.

Alienada é o meu nome.

Porque hoje em dia ninguém vive sem.

Ninguém dorme sem seu episódio.

Eu não assisto minisséries e sinto que ainda vou pagar caro por isso.  (RL)

 

 

Vida Marvada

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Pega uma semana qualquer. Conta quantos sentimentos diferentes, opostos, incoerentes, bobos, gostosos, assustadores, que emoções te sacudiram?

Pra mim rolou choro, tristeza boa, tristeza triste, teve muita amizade, insegurança, risada, ansiedade, impaciência, preguiça, alegria, orgulho, amor, vibração.

Deve ser isso que envelhece a gente.

Só na Copa já me acabo; em 90 minutos de jogo do Brasil rola euforia e pânico, tudo embolado, é demais pra uma pacata cidadã.

Aí tem as outras 22 horas do dia pra administrar porque a vida marvada ignora a Copa.

A filha com saudade do namorado exige um coração inteiro só pra ela, lá fui eu aplaudir a menina na quadrilha de marmanjos da escola.

Aniversários ignoram a Copa, partos normais ignoram a Copa, falecimentos e a geladeira vazia ignoram a Copa.

Nóis que se vire.

É isso.

E sai da frente que o Messi ta na área. Que ódio.   (RL)

 

Falando de Amor

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Vou contar uma cena que me dilacera o coração: abrir a geladeira e constatar que acabou o requeijão.

Hiper mega blaster fossa.

Requeijão é um dos pilares da vida. Toda casa de família tem. Todo domingo a noite pede. Todo pão francês exige.

Meu relacionamento com ele é cremoso, leitoso, amoroso demais e ainda que o mundo nos regale com manteigas incríveis, Philadelphias temperados e até Polenguinhos Light, tem momentos que pedem Re-quei–jão. No café da manhã fromage nenhum se compara.

Ao voltar de viagem o primeiro prazer é o reencontro com o requeijão; travesseiro fica em segundo.

Acreditem: minha amiga Ana tem até personal requeijão. Ela abre a tampinha de alumínio e passa o seu queijo na torrada e se por ventura a faca de outro alguém invade a área sabe o que ela faz? Abandona, doa, abre outro só pra ela.

Eu nem sou tão ‘písica’ aliás não consumo requeijão todo dia, na verdade quase nunca porque infelizmente ele tem um único defeito: engorda. Mas hoje isso é ínfimo detalhe.

Porque não vivo sem meu requeijão, preciso poder localizá-lo tipo extintor de incêndio. Quando um copo já está na metade é imprescindível que haja outro na geladeira. É a regra da casa. Pelo menos era.

Ontem, depois daquele zero a zero da seleção, o pãozinho esquentando no forno…abri a geladeira e levei um não, um enorme e dolorido não do requeijão.

Péssimo. Dormi atormentada.

E não pensem que um telefonema para a padaria encerra o caso. Vou apurar responsabilidades.

Mas até lá…

Minha alma segue aflita e eu me esqueço até do futebol.   (RL)

 

 

Alquimia

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Criar mais de um filho debaixo do mesmo teto é uma experiência fascinante.

A gente educa igual – os mesmos nutrientes afetivos, porções idênticas de comida , pitos equivalentes, etc. – mas isso não garante a homogeneidade da ninhada. Ao contrário, conforme crescem os indivíduos aparecem. As criaturas seguem sua própria vocação e nem quando o modelo dos pais é direito dá pra garantir que os filhos sairão aprumados.

Ainda assim, exemplo é tudo. A gente faz o melhor que pode, confia, estimula, reza, e depois espera.

Passa um tempo e o resultado aparece. As vezes escancarado e lindo.

Sábado almocei na casa de uma amiga da vida toda pra comemorar os aniversários de seus filhos: 18, 17 e 15.

Cada um deles a perfeita combinação de individualidade e educação recebida. Olho para os pais, conheço a história da família, sei dos percalços.

Converso com os filhos e reconheço neles a mesma força somada a uma faísca particular, colorida e fresca.

Desde então estou tentando definir o que senti nesse encontro.

É um misto de fato real e bola de cristal. Uma alegria uterina, coisa de mãe, de amiga, de madrinha de um deles.

De repente eu sei, com toda a certeza, que esses meninos estão muito bem formados. Que são uma verdadeira riqueza.

E que meus amigos Mônica e Pierre podem encher o peito de orgulho.

Seus filhos já despontam no planeta.  (RL)

 

Explode Coração

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É amanhã cumadre, é amanhã cumpadre!

Sai da frente que o som da sanfona vai desembestar pelo campo, vai ter samba e quadrilha com pipoca até o sol raiar

Enche a caneca de quentão, veste a camisa da seleção e sabe o quê?

Liga a TV!

Porque esse Brasil Junino de Meu Deus agora é só futebol

São João olhai pelo Neymar,

Santo Antonio abençoai o Fred,

São Pedro beijai os pés dos nossos moleques

E por favor, nada de economia

Vamos de Pai Nosso, mandinga, vale até ajoelhar no milho canarinho

Porque um grito de gol verdeamarelo é coisa Divina demais

E qualquer maneira de amá-lo vale a pena

Vamo se alegrá minha gente, que a bola vai rolá

E quando o estádio inteiro cantá,

vamo jurá bandeira,

vamo chorá

Com sangue, suór e lágrimas,

vamo celebrá.  (RL)

 
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