Encantador de pipas

 

Irritada com o trânsito que não anda, olho para cima e vejo a mais imponente das pipas. Voa sobre as outras com a elegância de uma majestade. Voa pelas mãos de um menino. Seus olhos brilham e acompanham os movimentos delicados da pipa, como um ballet colorido no céu. Ela continua subindo. Ele sorri, faz um ou dois movimentos e a pipa desliza graciosamente. Outra pipa enrosca nela e bruscamente as duas caem no chão.  O menino olha para os lados e vê outros meninos com camisetas grandes demais para corpos mirrados e chinelos pequenos demais para  pés que já cresceram. Caminha até a pipa, desvia do entulho, do lixo e dos cachorros que são muitos. Pega seu brinquedo sem vida. Enrola o fio enquanto os cachorros latem e os meninos debocham. Ensaia uma pequena corrida e solta a pipa lentamente. Ela sobe, preguiçosa, ganhando o céu. O menino recupera o sorriso e os olhos, vidrados no seu brinquedo, voltam a brilhar. Sigo parada, observando admirada, como se fosse um quadro ou uma poesia, a alegria do menino. (RM)

 

Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui.

 José Saramago

 

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