Archive for julho, 2012

Bom demais

O New England Clam Chowder é uma sopa bem cremosa, que leva mariscos frescos, batata, leite ou creme de leite e outros temperinhos gostosos. Ele está para a Nova Inglaterra assim como o acarajé está para a Bahia e o churrasco para os gaúchos. A aparência engana, parece um mingau pedaçudo, salpicado de crackers, meio sem graça. Mas é um prato aveludado, que aquece, preenche, que eu amo e agora cismei de fazer. Pesquisei a receita e espero ter descoberto a fonte: o restaurante mais antigo dos Estados Unidos, o Union Oyster House, de Boston. Lá se come o melhor, o autêntico, o mais aconchegante entre todos os chowders. Sem contar que, enquanto o freguês espera, eles servem um corn bread fumegante, com vários quadradinhos de manteiga pra derreter pão adentro, socorro!

Nem o bolo de milho nem o chowder são comidas elaboradas. Muito menos diet. Mas combinam tanto! Um adocicado e o outro salgado na medida, uma delícia. Em inglês existe o termo comfort food, que em português vira comida que conforta. Pra isso temos a canja de galinha, eles a sopa de mariscos.
Não basta ser saborosa, a sopa tem que ser carinhosa.

A receita que encontrei é essa: clam chowder. (RL)

 

Não gosto da Disney

Minha filha mais velha tem 18, a mais nova 10, a do meio 13. Ou seja, há muito tempo venho assistindo filmes infantis. Quem tem filho sabe que toda criança transforma o filme que gostou em uma espécie de Laranja Mecânica: assiste mil vezes ao mesmo desenho, até decorar as músicas, as falas e as expressões. Cheguei a pensar que essa repetição fosse a causa do meu problema, mas descobri que não. O fato é que eu não gosto dos filmes da Disney. E nesse fim de semana, ao assistir Valente, descobri o porque: eles matam as mães. Em sentido literal ou figurado. Na maioria dos filmes a figura materna é um problema. Ou elas não existem ou são submissas ou no caso das madrastas, malvadas. A redenção sempre parte do pai. Se não concordo que o papel materno seja valorizado, discordo ainda mais que ele seja sobrepujado. Quando a Disney comprou a Pixar um sopro de renovação pairou no ar. Que nada. Lançaram A Princesa e o Sapo, Enrolados e Valente apresentando esses mesmos elementos que a Disney insiste em explorar. Em 2013 vem a sequência de Monstros S/A, meu preferido. Até lá vou de Dreamworks. (RM)

 

Dançando com Renoir

Renoir pintou esses 3 casais dançando, em tamanho natural, em 1883. São de uma beleza inesquecível e estão expostos lado a lado até o começo de setembro no Museum of Fine Arts, em Boston. Depois, dois deles retornam ao Musée D’ Orsay em Paris.

Sorte a minha. Não só pude ver as obras juntas como pude admirá-las, em ‘tempo natural’ também.

Reparei no brilho furta-cor do vestido branco, nas bitucas de cigarro no chão da tela do meio, no leque, no rosto escondido, na moça tímida, no sapato. Reparei na música, na temperatura, no som dos pés rodopiando, nas vozes ao fundo. Reparei na luz, no movimento, no chapéu que caiu de tanto dançar.

Fora do circuito Paris, Londres, Roma, Nova York, é possível sim reparar sem pressa, sem filas nem cotoveladas, e esperar, até que o chapéu caia.  (RL)

 

Londres

Sabe quando gostamos muito de alguma coisa e queremos que todo mundo goste igual? Meu marido é assim com Londres. Adora a cidade. Na verdade acho que ele gosta da cultura britânica. Da cordialidade. De rock. Dos pubs. Ele gosta até do Jamie Oliver. Enfim, o fato é que ele ama aquele lugar. Ou seja, impossível existir alguém mais feliz nessas Olimpíadas. Como é de se imaginar, a cada dia ele enaltece uma coisa nova. Desde julho do ano passado  repete a mesma história: eles foram convidados a participar em um campeonato para testar as instalações da Olimpíada. Um ano antes do evento. Some a cultura, a cordialidade, o rock, os pubs e essa organização e temos a RubinhoLandia. No primeiro contato que tivemos depois que ele chegou em Londres, não falamos da viagem, do fuso, da Vila Olímpica. O assunto foi a escola onde eles estão realizando os treinos. Uma escola pública. Mandou até fotos pra comprovar os fatos.

Sala de aula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Detalhe dos computadores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aula de culinária

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mandou outras fotos também, da quadra e do estacionamento de bicicletas, mas não consegui diagramar. Até o fim dos jogos deve vir ainda muita coisa por aí. Seja pela admiração que meu marido tem pela cidade ou pelo cuidado que os britânicos estão demonstrando com o evento, torço pra que essa Olimpíada seja inesquecível. A abertura, logo mais às 17h, deve dar o tom do que veremos nos próximos dias. Boa sorte para Londres. E claro, boa sorte para nós, brasileiros. (RM)

 

 

Emoções Modernas

Eu já desconfiava mas agora veio a confirmação: saudade é um sentimento em extinção. Tenho provas. Fiz uma experiência caseira, que ainda está rolando, mas já sei que a conclusão não vai mudar.

Quero esclarecer – antes que me batam – que falo de uma categoria particular de saudade, aquela que antigamente dava quando alguém querido ia passar um tempo fora. Era uma tristezinha misturada com agonia de não saber exatamente onde a pessoa está, se está bem, vontade de ouvir sua voz. Pois acreditem, nos últimos 30 dias me coloquei offline no status do Facebook várias vezes, mesmo não estando, só para que a minha filha (que está nos Estados Unidos) não se sentisse obrigada a entrar no chat. E olha que nos damos super bem. Comprei um plano na Vivo, com direito a 40 minutos de ligação, usamos no máximo 20. É tanta foto, tanto inbox, tanto skype e sms, que chega a faltar conteúdo. A outra filha (que está na Europa) mandou um bbm perguntando se leek é alho poró porque o namorado queria pedir um risoto ‘disso’, em Dubrovnik. Do Itaim Bibi, salvei o almoço do menino na Croácia. Hoje de manhã ela mandou a foto de um iate – mãe, olha que máximo! Instantaneamente, achei bonito também.

Eu achando que ia sofrer sem as duas, a verdade é que estou ótima. Claro que sinto falta. Mas aquela saudade que dói, que faz a gente revirar na cama…pra essa já tem remédio até demais.  (RL)

 

 

Todo mundo quer amor

Seja na língua que for, basta aparecer um filme de comédia romântica que lá estou eu torcendo pelo casalzinho. Acho bacana esse poder que o amor tem de igualar todos os seres humanos. Independente da idade, do país, das diferenças físicas, culturais ou sociais, todos queremos a mesma coisa: amor. Queremos amar e ser amados. Por isso as histórias sobre o início ou o fim de um relacionamento rendem tanto, é fácil nos identificarmos. Possivelmente nunca pisaremos na lua. Não vamos salvar o mundo dos alienígenas ou voltar tempo. Mas vamos nos apaixonar. Assistir um filme com um casalzinho apaixonado é animador, principalmente quando a história é ou parece real. A Nokia que o diga.  Perdeu o amor na balada. Com ele se foram a imagem, o respeito e ao que tudo indica, R$ 6,5 mi. Talvez a Nokia tenha esquecido que, tão caro quanto o amor, é o ódio decorrente da traição. (RM)

 

Cansei de não ser sexy

Já se vão 3 dias de relacionamento íntimo com o inalador, o soro fisiológico e o lencinho de papel.

Nada de batom, nem sombra, muito menos rímel. Besteira pedir uma coisa gostosa pra comer porque é tanto remédio que o estômago embola. Não tem pra onde ir, aliás ficar em casa também não resolve.

Esse é o meu status: os olhos parecem uma bica d’agua, meu nariz é um tomate maduro, todo ardido e entupido, a cara lavada está mais pra terra arrasada.

Agora chega. Baixou a Carminha.

Oi, oi, oi,  até o fim do dia eu enterro essa gripe! (RL)

 

Despertador

Se tem coisa melhor que desligar o despertador por um mês, ainda não me contaram. Levantar a hora que quiser e fazer o que quiser, não tem preço. Aproveitar o dia, os amigos, as filhas, a cidade… Me sinto Thelma e Louise versão família.  Tenho aproveitado São Paulo como se fosse turista e tenho amado. Logo mais volto a reclamar, mas por enquanto posso dizer que não existe cidade como São Paulo nas férias. Mas cansei. Vou aproveitar esse dia lindo que brilha lá fora e vou começar o segundo semestre uma semana antes. Essas semanas foram ótimas para recarregar as baterias e tudo o que eu quero é colocar a mão na massa. Agora, apesar de toda a animação, ligar o despertador ninguém merece… Não deveria existir uma vedação constitucional proibindo as pessoas de levantarem antes das 6h da matina? Ai ai, que sono… (RM)

 

Sangue Americano

Sou Brasileira roxa. Mas a influência americana me acompanha desde sempre. Aprendi a ler e escrever em inglês. Aos 13 anos saí de casa e fui experimentar a vida com uma família em Oregon, por 6 meses. Voltei mais madura, mais aberta, mais preparada. As escolas com seus corredores de lockers, refeitórios e bibliotecas, os campus universitários incríveis, esse aparato me fascinava. Quando comecei a trabalhar escolhi empresas com presença multinacional, viajei muito, participei de convenções, workshops, reuniões in english por todo canto. Era o que eu queria: viver no Brasil, com um pé na ala internacional. Sem o inglês na ponta da língua isso não teria sido possível, pelo menos não com tanta tranquilidade. Com minhas filhas repeti o modelo e as duas estudaram por um tempo em escolas internacionais. Moramos em Boston, outra experiência maravilhosa com a cultura americana. Lá conhecemos várias famílias de estrangeiros que, como nós, estavam aproveitando a vida no país onde as coisas funcionam. Por isso, por tudo o que os Estados Unidos já me deu de bom, fico triste demais quando acontece outra matança maluca dessas. Tem tanta gente tentando entender, justificar ou explicar que nem me atrevo. O mundo está caindo de pau e também não me atrevo. Resolvi fazer um contraponto. Apenas um agradecimento e uma homenagem solidária.  (RL)

 

Pão de cada dia

Ontem fiz pão. Não sei se foi o espírito da ocasião, mas me pus a pensar em como o pão é um assunto vasto e interessante. A história que mais gosto é essa: o ano era 2000, em Wusburg, Alemanha. Fazia muito frio e nos hospedamos em um hotel pequeno, desses de família. Na primeira noite, o pai, um senhor de idade bem avançada que ficava na recepção, nos indicou um restaurante. Um restaurante para turistas. Jantamos, voltamos para o hotel e ele continuava na recepção. Sem sono e sem disposição para enfrentar o frio que fazia lá fora, ficamos conversando com o senhorzinho. Meu marido, fascinado que é pela 2a Guerra, encontrou uma maneira de entrar no assunto. Ouvimos muitas, muitas histórias. Na manhã seguinte fomos para Rothenburg e voltamos para Wusburg no fim do dia. Acho que ganhamos a simpatia do senhorzinho: ele nos indicou outro restaurante, o melhor da cidade, que não é frequentado por turistas. Ninguém no restaurante falava inglês e nós não falavamos alemão, mas a comida valeu a pena. Voltamos para o hotel e lá estava ele na recepção, munido de fotos e álbuns. Mostrou como era a cidade antes e depois guerra, os amigos que perdeu, as dificuldades que passou. E apesar de tudo  que mostrou e contou, era no café da manhã que eu enxergava a maior ferida da guerra ainda exposta. A fome. Ele passava de mesa em mesa, ‘quantos pães o senhor vai comer?’ Voltava com a cestinha nos braços e distribuía o pão em forma de ritual. Poucas vezes comi um pão com tanta reverência.  (RM)

 
© 2012 Reparei. Se alguma das imagens que usamos para ilustrar as postagens é de sua autoria e você prefere que ela seja retirada, envie uma mensagem para reparei@hotmail.com